Querido avô,
De onde te falo está uma bela tarde de sol. Daqui a nada vou estender a roupa, tenho o almoço a fazer e, nos entretantos, vou bebendo da garrafa de Chaminé que comprei no cabrão da mercearia. Desde que o Pingo Doce abriu, tem aquilo às moscas. Oh well, karma is a bitch, quem manda pôr preços do Além e roubar as pensões das velhas, durante anos a fio?
Tinto, 2010. Uma bela merda. Ácido pa caraças. Foi ele, de qualquer forma, que me levou a imaginar um texto delicodoce sobre como, enquanto foste vivo, nenhuma mulher podia entrar na adega, quanto mais pisar uva. Talha o vinho. Pois sim, mas na hora de cortar os dedos com a puta da tesoura e de alombar com os cestos pla fazenda, já fazíamos falta.
Dizia-te?
Ah, sim. Pus-me a ouvir o Canto de Amor, aquele do concerto do Carlos Paredes, em Frankfurt: pareceu-me a banda sonora adequada ao tom saudoso com que iria descrever o grande homem que foste. A tua generosidade inabalável, a força com que trabalhaste até à hora da morte, a alegria contagiante, a pinta de galã, os olhos azuis que herdei e mais uma data de adjectivos que comoveriam os leitores de segunda-feira, dispostos a ler tretas com piada e nunca uma coisa amarga de gaja que, a continuar assim, será uma vacarrona insuportável, mal fodida, mal amada, rotulada plos amigos bem sucedidos e com um nível de vida que upa upa, cuidado lá com ele.
A avó.
Mas depois lembrei-me das cenas de ciúmes que lhe fazias. Nenhum homem podia ir lá a casa se não estivesses. Fosse dar-se o caso de sonhares o gajo a rondar, punhas pernas ao caminho e vá de correr tudo, espingarda na mão, os cartuchos em cima do guarda-vestidos e eu sem perceber por que raio mantinhas os canos vazios.
Giro a valer era eu ir ao hospital para te fazer a barba – foi em que ano que caíste à cama? 96? 97? – e apanhar-te no laréu com as enfermeiras. Lá conversa tinhas tu, sacana. Piscavas o olho e ali ficavas como deus manda: impune nos teus lençóis lavados, comida na boca, banho a horas.
Vícios privados, públicas virtudes. É bom de ver que o tal texto não vai acontecer. Não vai mesmo.
Por mim, tudo o que deixaste - as vinhas, as casas, as terras – podia arder. Eu própria me ofereço para regar aquela porra com gasolina e largar-lhe um fósforo. E hei-de usar a minha última réstia de fé para pedir um vento leste.
Aqui andamos com a vida empatada, presos ao ai que agora vender não rende, ao património afectivo, às horas do teu suor, mantendo-te vivo nas conversas, esperando ver-te montado no tractor, diligente e sábio cuidando das abelhas. Pois que lamento: está na tua hora. Faz o que quiseres, mas some-te. De-sa-pa-re-ce.
Está na tua hora. Ou nunca mais será a minha.
Um beijo da neta
5 comentários:
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Beijo grande...
Na minha terra mulher com o período não podia sequer chegar perto do mosto. :)
As partilhas são uma coisa gira. Nunca ninguém quer nada porque a terra só dá trabalho, mas quando é para vender aparecem todos.
Caríssimos, nem tudo o que aqui se lê é rigorosamente autobiográfico :)*
Gostei muito. Espingardas e uvas também me fazem lembrar o avô da minha história. Mas este deixava-me pisar a uva. Que comichão nas pernas, credo.
Isto assim não pode ser. Impõe-se uma estratégia. Lá está.
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