30.12.09

2009

Cobardia: não foder, nem sair de cima. E, à custa disso, alimentar o ego.

Farta de balanços bonitinhos por essa blogoesfera fora, aqui fica o meu. E garanto que há nele muita coisa literal.

"Encontramo-nos no Desejo"


... é isso mesmo, o desejo...
... focar, focar com uma nitidez compulsiva, maníaca, obsessiva, um objecto

mas eu vejo tudo desfocado, tudo parece uma miragem
e no que eu não acredito
                   não desejo

N. A. Silva, A. J. Gonçalves, Filipe Seems - A Tribo dos Sonhos Cruzados, Asa, 2009.

Percebes que estás perdido
Quanto mais andas, mais perdido estás
Decides voltar para trás
Procurar o sítio de onde vieste
Mas não consegues encontrar o caminho de volta
Voltas para trás, à procura do sítio onde ainda há pouco estavas
E já não o encontras

Cada passo de volta
É um passo para um sítio mais longe

N. A. Silva, A. J. Gonçalves, Filipe Seems - A Tribo dos Sonhos Cruzados, Asa, 2009.

29.12.09

28.12.09

País real ?

Enquanto meio mundo discute o casamento entre pessoas do mesmo sexo, na minha aldeia ainda se questiona se é aceitável e bem visto uma pessoa divorciada (pronuncie-se desvorceada) ir à igreja.

    Brad Mehldau | My favorite things

Beber café a escaldar.
Andar de manhã cedo no paredão.
Tomar banhos que não acabam.
Organizar ideias dentro do carro.
Um abraço do meu irmão.
Adormecer a ler.
Salamandras e cobertores.
Ser recebida em festa pelas minhas cadelas.
Os wraps de cogumelos e mozzarella do Go Natural.
Aquele sol que às vezes há no Inverno.
Arrumar a casa com a música em altos berros.
Ver fotografias de Timor e ter muitas saudades de tudo.
Ouvir histórias de família e escrevê-las.
Cozinhar para os outros.
Perceber que me enganei acerca de alguém. Para melhor.
Receber cartas.

22.12.09

Triagem

É a palavra do dia. Apercebo-me cada vez mais da importância de saber dizer não, de separar o que quero do que não preciso. E isto inclui algumas pessoas, sim.

Não é uma coisa assim tão simples à primeira vista.

It's so easy to hurt others when you can't feel pain



21.12.09

Manifesto


Não me vou embebedar no jantar de Natal do trabalho só porque os outros três mil novecentos e vinte e sete o fazem.
Não vou fumar ganzas no dito jantar pela mesma razão e, sobretudo, porque na segunda seguinte vou ter de trabalhar com essas pessoas e tem que haver assim um mínimo de credibilidade de parte a parte.
Não vou alinhar em carneiradas porque se há coisa que me chateia é o histerismo colectivo e a pressão para fazer parte do clube x ou y.
Não vou sair à noite tendo como único objectivo o dançar que nem uma doida para marcar pontos e levar um gajo para casa comigo.

Se isso implica ser antipática, anti-social, preconceituosa, antiquada e chata, seja. Temos pena.
Aprecio muito a minha companhia, gosto demasiado de mim e de quem sou para embarcar neste tipo de merdas.

18.12.09

Fucking perfect #2

for a shitty rainy day. Como o de hoje.


Fucking perfect



Precisely

Sozinho, mesmo sozinho

O estado de “sozinho” pode gerar um misto de encantamento e embriaguez .

Falo do estado de “sozinho, mesmo sozinho”.

Não me refiro ao estado “sozinho com pontas soltas”. Com coisas por resolver, que vão e vêm. Isso não é estar sozinho. É a pior coisa que há. Essas pontas dão-nos muito trabalho, a tentar atá-las ou desatá-las. Por ali nos consumimos, sem glória nem proveito duradouro. Ficamos focados na ponta e desfocados do que nos rodeia. Perdemos o bom que circula à nossa volta.

Acho que há cinco anos que não estava sozinho, mesmo sozinho.

Tudo começa com uma decisão racional. E com um grito dado a nós mesmos. “Haja dignidade, pá !”, por exemplo. Dignidade para não magoar mais quem gostamos muito, mas não o suficiente. Ou dignidade para nos recusarmos a ser mais magoados por quem não gosta o suficiente de nós.

Ou então, se for esse o caso, berramos “esta gaja é uma pulha. Não lhe vou perdoar mesmo”. Inscrevemos no nosso cérebro esse mal todo e com ele vacinamos o coração.

Inicialmente custa estar sozinho, mesmo sozinho.

Mas depois, aos poucos, vamos começando a saborear-nos. Há quanto tempo não nos saboreávamos, é a pergunta que surge à nossa frente.

Deixamos de ter “dates”. Começa a ser natural chegar sexta à noite sem nada combinado. Ou sem a pressão de combinar algo. Para marcar espaço.

De súbito, tudo se torna simples. Os amigos deixam de dizer “podes trazer alguém” e dizem apenas “vem”.

Começamos a sentir um imenso poder. O poder de saber que não dependemos de ninguém.

Começamos a ver a beleza à nossa volta. O nosso humor torna-se mais acutilante. Deixamo-nos de merdas. Sentimo-nos disponíveis para o que de novo aí vier. Deixamos de depender do passado. Deixamos de estar à espera e passamos a ter esperança a sério.

Podemos vestir sem receios aqueles boxer anti-sexy, mas tão confortáveis, sem receio de que não possamos estar à altura das circunstâncias, porque sabemos que não vai haver circunstâncias dessas.

Nesta quadra de presentes, o sozinho, mesmo sozinho foi o melhor que pude oferecer a mim mesmo. E sorrio, porque amanhã à noite terei a sorte de estar a admirar as iluminações de Natal nos Champs Elysées. Como o ano passado. Como em todos os últimos anos.


Surripiado ao blog Conto de Fuga