18.1.10

Incomoda-te assim tanto olhar para mim? Como não to perguntei antes de descer as escadas do metro, pergunto agora.
É que a mim incomoda, sim. E mexe. Ouvir-te ao telefone, adivinhar a tua sombra lá ao fundo no jardim e perceber, depois daquele abraço meio trapalhão, que vinhas um bocado agitado. E eu tinha que escrever isto, não ia conseguir guardar mais. Na minha cabeça nasceram estas frases todas: ou no elevador, ou na cozinha, enquanto tomava banho, durante o sono.
Fiquei tão feliz por te ver, que por mim tínhamos continuado a andar sem café escolhido para nos sentarmos. Andar, andar, andar até ao Fim do Mundo, até Ushuaia. Ouvi de ti, do teu trabalho, das tuas coisas e, quando me disseste que tinhas passado o Natal sozinho por escolha própria, tive muita vontade de sair de onde estava, puxar-te para mim e fazer-te uma festinha na cara. Só tu é que vais poder perceber qual é, afinal, o limite, o teu limite, entre independência e solidão.
Se leres isto, vais continuar a não perceber a história de eu ter saudades tuas. Mas tenho muitas, como te disse. Sou parodoxal (faz parte do meu encanto...), o meu humor varia ao longo do dia, como se mudasse com o sol. Tudo verdade. Mas não sou masoquista e não fico a viver as coisas que podiam ter sido. Se estou triste, estou e pronto, aceito, vivo com isso. Faço o que fiz nessa noite, já bem tarde: páro o carro na marginal, saio e fico um tempão a contar as ondas.
Sabes, umas das cenas que mais me marcou, quando saí de casa, foi olhar para a cama onde não ia dormir mais e ver apenas uma almofada. O curioso é que eu não li nesse gesto racional a mensagem de que já não pertencia ali. Entendi que não havia era espaço para mais ninguém.
Não quero isso para mim. Continuo a ter duas almofadas na cabeceira.

13.1.10

Constatação do óbvio:


este blog está em modo down.


Tenho esta coisa de ser muito aluada e de andar sempre com a cabeça no ar. Viajo no tempo, disperso-me em rewinds e previsões futuras. Acho que nunca deste por isso: a partir de dada altura finjo que estou a escutar, mas a verdade é que ando a pular de sonho em sonho.

Ontem tentei imaginar que me davas um abraço. Foi tão real que quando voltei à hora H, já tinha passado a minha estação. Posso bem com essas minhas atrapalhações. A única coisa que me trama é que os dias claros ainda vêm longe. Pelo menos com os óculos escuros consigo disfarçar quando choro.

12.1.10


Ele é daqueles fulanos cheios de opiniões. Enche a boca para falar dos sonhos, da vida e do que se deve fazer com eles. Argumenta como ninguém, esgrime as palavras de capa e espada e é impossível não ceder a tanto brilho.

O problema é mesmo esse: é só fogo de artifício. Sem forma, sem orientação, vazio de conteúdo.

E eu sempre lhe disse que sou pessoa de detalhes. Aliás, continuo a dizer-te: os meus afectos estão nas coisas mais pequenas.

Assim de repente vou começar a escrever coisas sem relação nenhuma entre elas. Só porque me apetece.

Aqueles defeitos pequeninos que a gente sabe, todas as coisas com que embirro e que os meus dedos ainda conhecem de cor e mesmo a timidez diária dos teus olhos: vejo-os ao longe e garanto-te que não têm importância nenhuma.

O amor fez-me míope.

11.1.10




La vida es como la espuma, por eso hay que darse como el mar

Y tu mamá también, Alfonso Cuarón, 2001
Ai quem me dera

ter um homem
muito brasa
homem muito brasa

p'ra meter na mala
e levar p'ra casa


Gabriela Schaaf, Homem Muito Brasa, 1979


Há um certo e determinado fofo que se anda a cruzar comigo por aí. Este fofo, de vez em quando, lembra-se e vá de me acompanhar ao autocarro. Bem falante, grande sorriso, mãozinha no meu ombro p'raqui e p'rali. Hummmmm. Faço-me de parva (enquanto tento não derreter). Não é nada comigo e de certeza que é impressão minha, mania da perseguição ou assim. Mas a piscadela de olho e o querer saber se cheguei bem a casa andam a ser recorrentes (bem como esta coisa de corar até à raíz dos cabelos ao pé dele). Se quiseres, quando for para as tuas bandas, podes vir no meu carro. A minha amiga M. diz que este tipo de homem tem o chamado efeito Brasa: não dá em nada, mas aquece o coração. Eu cá digo que ele aquece muitas outras partes do meu corpo e não me responsabilizo por eventuais danos que o próximo convite possa causar.

8.1.10

Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias
para te dizer, com a simplicidade do bater do coração,
que afinal ao pé de ti apenas sinto as mãos mais frias
e esta ternura dos olhos que se dão.

Nem asas, nem estrelas, nem flores sem chão
- mas o desejo de ser a noite que me guias
e baixinho ao bafo da tua respiração
contar-te todas as minhas covardias.

Ao pé de ti não me apetece ser herói
mas abrir-te mais o abismo que me dói
nos cardos deste sol de morte viva.

Ser como sou e ver-te como és:
dois bichos de suor com sombra aos pés.
Complicações de luas e saliva.

José Gomes Ferreira

       Explosions in the Sky| Your hand in mine

5.1.10

Mostrou-me o outro lado das coisas, a beleza que pode haver nas paisagens caóticas de domingo.

Mostrou-me o outro lado das pessoas. O dele também.

Mudei de casa. Mudei de terra. Mudei de hábitos e horários. Mudei o discurso, mas mesmo asssim as palavras haviam de ter sempre outros sentidos para além do tacto. Perdi alguns medos e acabei por ganhar outros tantos.

Mudei. Virei-me do avesso e vi o meu outro lado: aquele que deixou marcas carregadas em quem talvez não merecesse.

Não há balanços a fazer. E aquilo de que entre mortos e feridos alguém há-de escapar?

É treta.