29.1.10



Se pudesse, comia esta música, de tão deliciosa que é.

Mike Patton para sempre (em coração foleiro tatuado no meu braço, pois).

28.1.10

        Air | Alone in Kyoto

Um Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti



Alexandre O'Neill, "Um Adeus Português"

27.1.10


Nan Goldin, Smoky Car, 1979
    Beach House|Take Care
Gostava de cerveja. Agora prefiro vinho tinto.
Ainda me divirto a jantar em tascas, mas não digo não um bom restaurante.
Os meus amigos são aqueles com quem quero estar verdadeiramente. Não tenho mais paciência para fazer fretes com o fulano que é conhecido de tal e que até é porreiro e divertido e cospe fogo fazendo todo o mundo rir yada yada yada.
Entre uma discoteca pejada de gente, com o "I want to live in Ibiza" como pano de fundo e um bar onde possa ter uma conversa decente, escolho o segundo.
E flores, por favor. Frésias caem sempre bem.

Isto para te dizer que aos 31 anos não são as tuas piadas que me impressionam (embora o sentido de humor seja importante), nem tão pouco a bazófia de já teres feito isto e aquilo. O que me leva a querer sair contigo é aquela coisa a que cada vez mais dou valor: a classe. E de facto noto que há homens que não a têm.

Com a idade vem a exigência, a selecção e o saber dizer não. Não, obrigada.

22.1.10

Ter saudades do que consegui ser com outra pessoa significa ter saudades dela?
Ter saudades das coisas que costumava fazer com outra pessoa significa ter saudades dela?

18.1.10

Incomoda-te assim tanto olhar para mim? Como não to perguntei antes de descer as escadas do metro, pergunto agora.
É que a mim incomoda, sim. E mexe. Ouvir-te ao telefone, adivinhar a tua sombra lá ao fundo no jardim e perceber, depois daquele abraço meio trapalhão, que vinhas um bocado agitado. E eu tinha que escrever isto, não ia conseguir guardar mais. Na minha cabeça nasceram estas frases todas: ou no elevador, ou na cozinha, enquanto tomava banho, durante o sono.
Fiquei tão feliz por te ver, que por mim tínhamos continuado a andar sem café escolhido para nos sentarmos. Andar, andar, andar até ao Fim do Mundo, até Ushuaia. Ouvi de ti, do teu trabalho, das tuas coisas e, quando me disseste que tinhas passado o Natal sozinho por escolha própria, tive muita vontade de sair de onde estava, puxar-te para mim e fazer-te uma festinha na cara. Só tu é que vais poder perceber qual é, afinal, o limite, o teu limite, entre independência e solidão.
Se leres isto, vais continuar a não perceber a história de eu ter saudades tuas. Mas tenho muitas, como te disse. Sou parodoxal (faz parte do meu encanto...), o meu humor varia ao longo do dia, como se mudasse com o sol. Tudo verdade. Mas não sou masoquista e não fico a viver as coisas que podiam ter sido. Se estou triste, estou e pronto, aceito, vivo com isso. Faço o que fiz nessa noite, já bem tarde: páro o carro na marginal, saio e fico um tempão a contar as ondas.
Sabes, umas das cenas que mais me marcou, quando saí de casa, foi olhar para a cama onde não ia dormir mais e ver apenas uma almofada. O curioso é que eu não li nesse gesto racional a mensagem de que já não pertencia ali. Entendi que não havia era espaço para mais ninguém.
Não quero isso para mim. Continuo a ter duas almofadas na cabeceira.

13.1.10

Constatação do óbvio:


este blog está em modo down.


Tenho esta coisa de ser muito aluada e de andar sempre com a cabeça no ar. Viajo no tempo, disperso-me em rewinds e previsões futuras. Acho que nunca deste por isso: a partir de dada altura finjo que estou a escutar, mas a verdade é que ando a pular de sonho em sonho.

Ontem tentei imaginar que me davas um abraço. Foi tão real que quando voltei à hora H, já tinha passado a minha estação. Posso bem com essas minhas atrapalhações. A única coisa que me trama é que os dias claros ainda vêm longe. Pelo menos com os óculos escuros consigo disfarçar quando choro.

12.1.10


Ele é daqueles fulanos cheios de opiniões. Enche a boca para falar dos sonhos, da vida e do que se deve fazer com eles. Argumenta como ninguém, esgrime as palavras de capa e espada e é impossível não ceder a tanto brilho.

O problema é mesmo esse: é só fogo de artifício. Sem forma, sem orientação, vazio de conteúdo.

E eu sempre lhe disse que sou pessoa de detalhes. Aliás, continuo a dizer-te: os meus afectos estão nas coisas mais pequenas.

Assim de repente vou começar a escrever coisas sem relação nenhuma entre elas. Só porque me apetece.