25.2.10

O clã

Lá por casa sempre houve uma relação muito nossa com o passado: não se fala dele. O lema é erguer o olhar e seguir em frente, sendo que o bom desta atitude ensinou-me a mim e ao meu irmão a estarmos sempre preparados para tudo, a arregaçar as mangas e ir à luta. O reverso da medalha tem a ver com o não preservar da memória e das histórias de família.
De há uns anos para cá, tenho tentado mudar isso e, agora, a pretexto dos 60 anos da matriarca, quando a visito, fujo à socapa para a sala e abro a gaveta das fotografias. Esta gaveta sempre me fascinou: funda, caótica e desorganizada, sem ordem temporal, nela misturam-se caras, lugares, passeios ao jardim zoológico, piqueniques a caminho da praia e legendas em jeito de lembrete de alguma coisa que se achou importante anotar. Remexo-a à procura de tesouros para o álbum de parabéns que estou a construir e apercebo-me da dificuldade de escolher os momentos mais marcantes das seis décadas de vida dela, não só porque há dores fundas no caminho feito, mas também porque os cruzamentos com outros caminhos são mais que muitos. Dá-me vontade de contar todas as histórias e fazer vários álbuns: da tia-avó que nunca tinha vindo a Lisboa e que pasmou de espanto à beira-rio; do bisavô moleiro que comprou a terra onde o meu avô João havia de construir, mais tarde e a custo, a nossa casa; da prima afastada que chocou a família inteira ao levantar a saia para mostrar o tornozelo ao namorado.

Posto que estou numa de arqueologia sentimental, não resisto a partilhar com as três (duas, vá) pessoas que me lêem, algumas preciosidades do meu clã.


O meu vô João, da esquerda para a direita: a caminho da escola; na tropa com três companheiros; a fatiota no dia do casamento; os convidados do casamento (um deles é a minha mãe!! Pois é, vovô e vovó viveram juntos, vovó engravidou e só depois oficializaram a coisa); na "Ferro de Portugal" (actual Carris) e com um colega motorista.


A matriarca Madalena, também da esquerda para a direita: na Praia das Maçãs; na Fonte Luminosa a exibir o seu belo caracol; algures lá por casa, na fazenda e à janela; com os avós dela e, por fim, no Olival Basto, onde viveu alguns anos.

12 horas de trabalho - check
ir a casa da matriarca para ter dez minutos de colo - check
ficar presa duas horas num túnel por causa de um acidente - check
conversa telefónica mirabolante com ex-namorado - check
carro a fazer barulhos esquisitos, como que prestes a explodir - check
amiga doente a ligar para perguntar se EU me lembrava de quais eram os horários dos medicamentos DELA - check
fome - check
aflitinha para ir à casa-de-banho - check
passar na portagem e tirar o ticket - check
passar na outra portagem danada com a porra das obras da auto-estrada e desejosa de chegar pelos já referidos motivos fisiológicos - check
ouvir um sinal sonoro lá atrás - check
perceber que aquilo apitou porque não parei e não paguei a portagem - check
borrifar-me com descontracção para isso - check
jantar às onze da noite - check
ficar até às duas da manhã a ver fotografias dos antepassados do clã - check

Foi um dia longo. E perfeito.

24.2.10

Pardon my french

foda-semaisàmerdadashistóriasdacarochinhaedosideaisporquemeensinaramalutar.

a vida cá fora é outra coisa bem diferente.

22.2.10

Escreve-se até se chegar a um lugar onde ainda se tem sumo e onde ainda se sabe o que vai acontecer a seguir e pára-se para tentar resistir até ao dia seguinte, quando se esbarra de novo. (...) Quando terminamos estamos tão vazios, embora simultaneamente nunca se esteja vazio, mas a encher, como quando se faz amor com alguém que se ama.
(p.112)

Eu ainda acredito (...) que é péssimo para um escritor falar a respeito daquilo que escreve (...) não compete ao escritor explicá-lo ou organizar visitas guiadas pelas regiões mais inóspitas da sua obra.
(p.124)

O talento essencial para um bom escritor é ter implantado em si próprio um detector de merda à prova de choque. É esse o radar do escritor e todos os grandes escritores o tinham.
(p.136)


Benicio Del Toro

Porque me irritam os homens demasiado bonitinhos e perfeitos. Porque me tremem sempre as pernas perante um "sexy ugly". E porque hoje estou numa de rótulos, sim.


Caixa Geral de Despojos
Quintas de Leitura
Correntes D'Escritas
Literatura em Viagem
Escritaria

Cinco argumentos de peso nesta vontade de me mudar para o Porto por uns largos tempos. E pode ser que isso aconteça mais depressa do que aquilo que planeava.

18.2.10

O Alessandro Magnanini consome-me as horas vagas (eu e ele íamos fazer filhos lindos, garanto) e nas de insónia pulam as entrevistas de Kerouac, Capote, Faulkner e Hemingway à Paris Review, numa bela edição da Tinta-da-China.

Confirma-se: não tenho nada de interessante para dizer.

     Alessandro Magnanini | Secret Lover

12.2.10


     Blonde Redhead | Elephant Woman

Venho aqui e escrevo umas palermices, coisas do menú banal dos meus dias, quando o que me apetece mesmo é gritar a raiva e a pressa que acumulo de dia para dia nos meus pulsos. Esta treta de sermos todos aparentemente felizes, de bem com a vida, quentinhos no conforto da nossa casa, do nosso carro, a caminho do nosso trabalho, na rotina segura e pequenina do que julgamos ter e que nos agarra os pés à terra foi tudo o que sempre abominei. Sempre. Agora dou por mim nesse esquema de trabalho-casa-trabalho-amigos-ter relações é uma coisa exigente hoje em dia-quá-quá-quá-família-uma festa aqui ou ali mais cinema-ou-teatro-em-calhando e a ginástica para pagar as contas no fim do mês. Aos 31 anos, dir-me-ão vocês, já não devia ter estes acessos de Teenage Angst. Pois. Mas acontece que sou inconstante como o tempo e se agora estou contente com a vida e os projectos que não paro de ganhar, a velocidade imprópria na marginal porque a reunião não se adia, jantares semanais às onze da noite em frente à televisão, quatro horas de sono em cima do pêlo e raios me partam se este ritmo não leva a minha produtividade a picos para lá de extraordinários, também me apetece fazer as malas e ir-me plo mundo, volto daqui a um ano, sim?, vou fazer as fotografias que sempre quis fazer, vou escrever, vou encher as caixas de correio de palavras e bilhetinhos, fazer poesia de guerrilha, embrulhar paredes de casas em textos que me mantêm à tona e concretizar. Concretizar todas as ideias absurdas e sonhos não menos que isso que tenho na cabeça.


Talvez no intervalo consiga resolver o coração.

9.2.10


Falam-me em Moscovo e São Petersburgo e eu penso stravinsky-bolshoi-kremlin-matryoshkas-praça vermelha.


que
bolas
...

Rosenborg-jardins-canal-galerias de arte. Neste momento, tenho a página da Air Berlin aberta e estou a um ok de me ir para Copenhaga all by myself.
Que não se aguenta, este trânsito. Duas horas na auto-estrada. E ainda pagamos a esses filhos da mãe para ligarem o país de ponta a ponta. Pára-arranca-arranca-pára. E o preço do gasóleo é ridículo. Já para não falar do dinheiro que a Emel nos chula todos os dias, para os sacanas dos administradores andarem montados em topos de gama, de rabinho tremido pela cidade.

Com conversas matinais destas, posso eu bem. Meus amores, não me lixem. Venho todos os dias de comboio e ainda apanho, feliz e contente, o belo do autocarro para chegar ao trabalho. E então? Tenho um bocado a menos? Cheiro mal? Pareço infeliz? Não. Demoro 45 minutos, não me chateio, ponho a leitura em dia e ganho qualidade de vida.
Repitam comigo: transportes públicos. Vá, mais uma vez: transportes públicos. Não custa e não dói.

8.2.10



Valentins do passado


(...) Com o passar do tempo, vão aparecendo mais bonecas russas nas tuas camadas. Bonecas que não são imutáveis. Algumas eu vejo com mais nitidez, outras com menos, outras preferes não mas revelar.
Quem eu vejo é uma mulher a 200%. Que sempre viveu assim. És impulsiva, tens mau-feitio, és senhora do teu nariz, gostas das coisas boas da vida e de viver cada dia ao máximo, irritas-te com o teu corpo por não te deixar fazer tudo o que queres, exigente, exigente, exigente, és louca, ris-te que nem uma perdida, comoves-te (...) Tens raiva. Tens carinho. Tens apego à tua história, às tuas raízes. Queres criar novas raízes e não sabes bem como. Sentes-te sem um modelo, és menina-mulher. Brincas. Dormes. Não consegues meter-te a fazer alguma coisa e não a fazer bem. Às vezes tens a testa franzida, às vezes não (...) Tens um sorriso de me apaixonar cada vez que o vejo, tens mais músculos na cara do que bonecas russas. Tens aquela coisa que fazes com o nariz que me faz rebolar a rir. Fazes-me rir. Fazes de mim melhor todos os dias. Tens ideias. Queres voar. Queres saber quem és. Tens sono. És professora. Queres dormir (...) Tens coisas dentro das cabeças das tuas bonecas russas que queres resolver. Não tenho dúvidas de que o farás. Tens saudades de ti, tens saudades do passado, tens saudades do futuro.
Vais ter paz.

Porque "um cliché fica totalmente diferente quando é o nosso cliché."

Está a circular pelo YouTube um vídeo da cábula de Sarah Palin, mãe exemplar, mulher-fenómeno da política americana e revelação da revista Caça & Pesca de 2008. Não por esta ordem.
Este tipo de gaffe, não querendo tomar partido, é bem capaz de ser uma coisa do partido. Alguém se lembra do episódio em que, numa reunião das Nações Unidas, o caríssimo GW escreveu uma singela nota a Condoleeza Rice (Condi para os amigos), a pedir licença para ir à casinha?