30.3.10

Imaginem o cenário:
um almoço de trabalho onde a malta toda come cachupa e musse de manga.

Juntem-lhe este detalhe:
alguma coisa no repasto estava estragada.

E mais este:
duas casas-de-banho para cerca de 20/30 pessoas.

É que não dá mesmo para imaginarem. Garanto.

29.3.10

Com os livros que trouxe do Porto, mais os cds acabadinhos de chegar, estou em crer que era capaz de entrar em modo de hibernação doméstica por uns tempos.




28.3.10

COCHE REAL, O DEGELO

mais tolerante, indiferente, menos
exigente, talvez
passei a sentar-me na Bijou do Calhariz
(outra moldura, os mesmos eléctricos)
no silêncio polar do urso a quem vão
descongelando aos poucos o último glaciar
da terra

outros, cuja paciência está
há muito esgotada, foram indignar-se
incrédulos
para lugar nenhum
- o último lugar -

vou ficando por aqui no Calhariz
a esta mesa

marcando encontros a que respondes
com uma incompleta comparência.

Miguel-Manso, Santo Subito, ed. de autor, 2010

PEDRAS I

Tenho-te dito tanto:
tens umas pedrinhas verdes nos olhos

Se fosses mais nova - por exemplo quase criança
convidava-te a vires a minha casa

Procurava impressionar-te:
dir-te-ia que vim de França
mostrava-te as minhas pequenas grandezas.
A minha colecção de coisas e factos que
aqui e ali
me têm distinguido ou dado alento.
Tenho-te dito tanto das tuas pedrinhas que nem tento

Vou aprender a espera
com os bichos que suspendem a pressa
(o vagar do lagarto, pode ser)

E esperar o dia em que ergas a casa comigo

João Habitualmente, Os Animais Antigos, objecto cardíaco, 2006
O Porto está bem de saúde livreira e recomenda-se. Trouxe muitas coisas boas de lá (que é como quem diz: vou viver a pão e água o resto do mês, mas tudo bem...) e partilho aqui algumas convosco:

- Uns quantos números da revista de poesia cràse
- Outros tantos da revista de poesia Brilho no Escuro
- Mais poemas de Miguel Manso
- Não contente com a overdose de versos, ainda resgatei de uma estante Os Animais Antigos, de João Habitualmente.

Vemo-nos daqui um mês, sim? Tenho leituras em atraso.

Do que gosto finda a viagem: espalhar os livros comprados na cama e ficar a lê-los até adormecer.

Do que não gosto finda a viagem: chegar a casa e não ter ninguém a quem contar as minhas aventuras.

25.3.10

Tom Waits|You Can Never Hold Back Spring

Estar sempre, sempre lá para a prima neste período tão difícil. Falar com a Ros e perceber que rir com ela talvez a ajude a enfrentar as coisas com outro ânimo. Sair com a S. e escutá-la. Ver as fotos do filho do Gimbras e pasmar: como é que ele pôde fazer um Gonças tão lindo? Teatrar com a Gaby, o Pê e o Gil e perceber que estamos a ficar velhos (já passaram 14 anos, bolas!). Jantar com a Marise e, de alguma maneira, celebrar esta boa fase da vida dela, nem que seja a jogar Pictionary às não sei quantas da manhã. Receber no aeroporto o doido do Paulo e lembrar as parvoíces que fizemos em Baucau.

O melhor que tenho para dar aos meus amigos é mesmo isto: tempo.

23.3.10



Do fim-de-semana



1. A história contada, num jantar de amigos, de um casal com vários anos de casamento. A mulher descobre que há muito que ele dividia a cama com prostitutas e confronta-o. Ele? Pega no carro e atira-se ao mar. O corpo aparece um mês depois, a boiar ali para os lados de Espanha. Ela? Toma um banho de duas horas e no dia seguinte vai fazer testes ao VIH.
Pelo meio há um filho e uma família incrédulos.

2. Andei a distribuir poemas no Jardim Botânico (dia mundial da poesia, sol maravilhoso e música como pano de fundo). A reacção das pessoas à minha pergunta desarma-me. Posso dar-lhe um poema de amor? Uma velhota, vestida com a melhor roupa de domingo, malinha triste nos joelhos, olha-me: Menina, é mesmo disso que preciso, de amor. Já tive, já tive.
No banco ao lado, um casal de namorados beija-se e abraça-se.


O universo não pára de me mandar sinais. Resta-me perceber de quê.

22.3.10


Jace Everett| Bad Things

Vou ao céu

E venho-
-me

Jorge de Sousa Braga, O Poeta Nu, Fenda, 1999

19.3.10

Meio-dia e pouco e dou um salto ao centro para fazer umas compritas aqui: coisas boas e cheirosas para os meus banhos prolongados. Love it. Apanho o 727 de volta e assim que me sento, desato a abrir os frascos e a experimentar tudo. Misturam-se e acentuam-se, com o calor da hora, os cheiros do côco e da baunilha. O rapaz do banco da frente ri-se. Cheira bem. Sinto-me triste e com o coração a doer, sim, mas devolvo o sorriso e junto uma piscadela de olho. Pois cheiro.
A Primavera está aí e tenho andado a perder muito do que se passa à minha volta.
Tempo e pequenos passos. Hão-de levar-me a algum lado, acredito.

"Quem Sou Eu?"

Nada me dá mais gozo (e alento para os meses que ainda tenho pla frente) que estar a planear, finalmente, a minha viagem de Verão. Croácia. Sozinha. Só me falta uma máquina fotográfica decente.