29.9.11

Note to self

Não me faças muitas perguntas, mas hoje preciso de ficar em algum lado e não quero pedir a mais ninguém. Dá pa ir pa tua casa?

Claro, ficas o tempo que precisares.

Não perguntei mais nada e no final do dia fui ter com ela. Já ia na segunda caipirinha e o maço de tabaco tava perto do fim. Como sempre, disfarçou a coisa com aquela aceleração dela e eu a ouvir tudo, preocupada. Meti-a no carro, lá me arrastou para o super e atalhou para o corredor dos vinhos. Queres levar Monte Velho? Pôs duas garrafas no cesto e continuou a olhar para as prateleiras. Sacou mais uma de tinto EA e seguiu, frenética. Pão, queijo, gelado, iogurtes. Insistiu em pagar tudo.
Fiz o jantar e obriguei-a a comer. A conversa acabou por sair: as merdas do trabalho, a ida para os Estados Unidos cancelada, o casamento marcado e a pessoa que ela julgava ver no namorado e que, afinal, se revelava outra. O medo do que aí vinha.

A história não é nova e há-de repetir-se. Já a vivi, vejo-a nos que me são próximos e traz-me a confirmação de sempre (e deus sabe como preciso dela!): não há pessoas ideais, não há relações perfeitas e a porta bonita de uma casa é só isso mesmo, uma fachada.

28.9.11

Não percebo nada de negócios

Entidade patronal - Tens que ligar a fulana e dar-lhe graxa para lhe mostrar que, agora com este novo trabalho, o fee que nos pagam vale a pena.

Moi même -Tu sabes que sou má nessas coisas.

EP - Sim, mas tens que ligar-lhe e dar-lhe conversa.

Mm - Mas o fee não é para isso mesmo: para pagar o nosso trabalho? Ou seja, estamos a cumprir com a nossa parte e eles também. A graxa aqui entra porque...

EP - (Suspiro)

No need to say more


26.9.11

Não sei e não quero saber tão cedo

endoscopia matinal + anestesia bebível que deixa as pessoas semi inconscientes + mãe sexagenária dada ao bláblá fácil = filha p'ra lá de envergonhada a fingir que não a conhece de parte nenhuma.

E ainda me sai de lá toda torta, a dizer que esta coisa de nos enfiarem um tubo, sabes?, é libertadora.

23.9.11

Andreya, quero enrolar-me contigo e fazer bebés


 Andreya Triana | A Town Called Obsolete

Não é que estivesse com saudades

mas isto é um bocado como o bicho do caruncho: remói e remói por dentro, até que há uma perna da estrutura (no meu caso foram os bracinhos) que acaba por ceder.

1.7.11

Sangue

O que é que nos faz tão diferentes? Não é o seres morenaço e de olhos castanhos e eu a eterna russa de mau pêlo com pinta de estranja. Ainda ontem em Alfama me convidaram to eat typical Portuguese food. Obrigada, mas vou ali comer umas pataniscas. E pisquei-te o olho.

Em puto, se pudesses, comias musse de chocolate e batatas fritas a toda a hora. Adoravas pendurar-te no tractor com o avô e o único brinquedo que nunca espatifaste, para ver como era por dentro, foi aquela espada de madeira do Zorro
Quando o pai morreu, criou-se um pacto de protecção à tua volta. Como se não pudesses saber do que tinha acontecido - foi isso que nos separou. Porque eu sabia. E não só sabia, como passei a tratar da dor dos outros para que a esquecessem.

Crescemos.

A minha ida para fora nunca a percebeste bem. Não havia um sítio ainda mais longe que Timor? Bolas. Do regresso nem falo, a factura paguei-a cara e fiquei sempre naquela de ser a ingrata, a desbocada, a impulsiva, a única irmã do planeta que vai a Amesterdão e me traz prendas duma sex shop. Tu, o ponderado e sábio mano mais velho, mesmo tendo nascido cinco anos depois de mim.

Há uns tempos tivemos uma discussão monstra, lembras-te? Fiquei de estômago virado por te ter chamado cobarde. És sempre o gajo que não toma partido, que concilia e põe panos quando tudo o resto está a arder - nosso senhor sabe o curto que é o meu pavio. És o gajo que encolhe os ombros e entrega, mesmo que tenha o saco cheio, e essa merda dá cabo de mim, do meu arregaçar de mangas e do partir a loiça toda.

Ontem abraçaste-te a mim Gosto muito de ti, maninha. Caiu-me tudo e a garganta seca só articulou um És o meu orgulho.

Pelo menos temos a mesma altura no BI.

30.6.11

21.6.11

Blogoesfera

 Eu na mata.


 Eu, de férias, na praia.


 Eu nas compras.


 Eu a ler o jornal. Esqueci-me do Tcheckhov na mata.

 Eu e a minha cria.


Eu e os meus sapatos novos.


Eu a disparar contra o mundo em geral.

Declaração de intenções

Agora sou eu que não quero.

20.6.11

A partir do 1:20m levito e o universo é uma vizinhança porreira


Delibes, Lakmé

De uma vez por todas

Quando convidam uma mulher para sair pela primeira vez, não digam coisas do género:
Vou ter contigo onde quiseres
Escolhe tu, a sério
Não tenho jeito nenhum, falta de treino
Sou mau a desencaminhar, bem que me podias dar uma ajuda

Decidam, senhores. D-e-c-i-d-a-m.

paintball

Tu és toda cultura...
Que é que queres dizer com isso?
Falas de livros e eu não gosto de ler. Falas de política e eu por isso não me interesso. Não ouço a mesma música que tu. E não tenho tempo para ir ao cinema.
Sim, ok, mas tens opinião.
Epá, tá bem, mas pára lá de falar de política.
Pronto, seja. Novo governo e tal, tou curiosa, só isso. Mudamos de assunto, vá.


Fiquei a saber tudo o que há pa saber sobre estratégias de
Na reunião discutia-se o sabor dos aperitivos que iam ser servidos na próxima. Nesse estágio de produtividade já estou para além de Baghdad e, normalmente, a imaginar bolas coloridas de ping-pong a saltar da boca de quem fala. 
O teu telemóvel tá a piscar. Olhei para o visor: Mãe. (Oh diacho, 11h30 e ela a ligar-me? Epá deve ter havido espiga) Já volto, desculpem.

Então, que se passa?
Olha, ligou-me a dona Maria dos Anjos com um recado da filha. Ela lembrou-se de ti. O grupo não sei quê vai abrir um novo hospital e tão a contratar pessoas para os serviços administrativos.
Mas
Manda para lá o currículo, nunca se sabe, não custa tentares e em tempo de guerra a gente tem que ir a todas.
Mas mãe, tu imaginas-me fechada a carimbar papéis o dia todo? 
Queres fazer o quê? A vida é sacrifício, andamos cá todos é pa penar, as coisas são mesmo ass
Tá bem, eu mando o currículo.
A sério?
Sim, a sério.
Achei que ias dizer que não.
Se dissesse que não íamos ficar aqui, como sempre, a discutir o sexo dos anjos e eu tenho de voltar pa dentro.
Tu achas mesmo que não te topo à légua?

16.6.11

Linguagem corporal

À entrada cumprimentámo-nos com um aperto de mão: Sou o N., como está?

À saída, presumindo que seria igual, estendi a minha. Puxou-a, puxou-me e deu-me dois beijinhos enquanto a apertava com muita força.

"Postura" têm as galinhas, por isso digamos que me sinto sempre uma perfeita anormal em termos de "saber estar" nas reuniões de trabalho.