30.11.11

Querido Dan


Quando te ouvi cantar o Tighten Up julguei-te mais um tipo com complexo de Peter Pan e amores de infância mal resolvidos. Depois veio o Howlin' For You e houve qualquer coisa cá dentro que mexeu e abalou pa caraças. Dei por mim a pensar que eras bem capaz de trazer o conceito de sexy para a música, até porque tu sabes, Dan, tu sabes o que se passa na cabeça de uma mulher ou não dirias coisas do estilo there's nothing worst in this world than payback from a jealous girl. Com o She's Long Gone pões-me a sonhar com o dia em que me demito e largo o fogo a este tasco pestilento.
Ontem roubei-te o El Camino (juro que vou comprar o disco mal ele saia). Fiquei meio indignada: ora porra, aquele início do Little Black Submarines é um Johnny Cash pífio e só to perdoo porque aos dois minutos partes aquela merda toda e tens, de novo, a inteligência de dizer que everybody knows that a broken heart is blind. Pões-me a dançar com o Lonely Boy, rockalhada just for fun; pões-me a pular com o Run Right Back e o Sister faz-me ter vontade de voltar aos anos 80 para subir as escadas do Capitólio a correr. Não sei se isso é necessariamente bom, mas que tem o ritmo certo, lá isso tem.

Dan, um homem que me faz sentir esta merda toda, é obviamente um homem que eu quero conhecer. Temos portanto um problema: comé? Vens a Portugal ou vais obrigar-me a correr meio mundo atrás de ti?

Até te desculpo a barbonga com que às vezes andas e tudo.

29.11.11

E na Rua da Escola Politécnica

passou uma miúda baixinha, magrinha, com roupa de ginástica pra lá de justa. O pêlo da gola do colete parecia prologamento do rabo de cavalo loiro que ela usava de lado. Pela trela puxava um Yorkshire despenteado.

Hoje, no 758

o motorista, de guedelha preta e óculos escuros, riu-se com vontade. A atravessar a passadeira, uma velhota mandava-lhe beijos com a ponta dos dedos, em jeito de agradecimento por ele ter parado.

28.11.11

O meu calamitoso histórico de amores tornou-me reservada, medrosa e pouco desenrascada na arte da conversa. Basta ver a cena de quinta passada: sentada num puff do MusicBox, vejo-o lá ao fundo. O meu amigo P. belisca-me e diz-me Vai lá falar com ele. As pernas enfraquecem e não consigo. Dá-se o caso da montanha vir a Maomé: Já te tinha visto, estás a gostar do Poetry Slam? Sorrio. E coro. Coro mais. Continuo a corar. Não me sai nada, não lhe respondo. E ele ainda tenta resgatar a coisa Está tudo bem? Um Sim, obrigada e tudo é finito.

Tenho 6 anos outra vez.

24.11.11

Note to self

Parar de ouvir o Morrissey a cantar o Let me kiss you quando tenho insónias às 3 da matina.

23.11.11

I'm hopeless

Ao único gajo do meu trabalho que reparou que eu tinha cortado o cabelo, só consegui responder com um obrigadinha. Isto logo depois de dar por mim a pensar Oh, deve ser gay.

22.11.11

Ser grande num país de gente pequena

Nem sequer há número para pessoas com essa altura e peso. Comprar collants dá-me cabo da auto-estima.

21.11.11


- O meu telemóvel tá mesmo a ir pr'o galheiro. Atão, méquetás?
- Tou arreliada e fodida da vida. Uma das minhas chefes deu-me uma piçada em frente a uma colega. Não se faz pá, chamava-me à parte, fartinha disto. 
- Mas, filhota, tu já sabes que blablablablablabla
- Hmpf. 
- Tás aí?
- Tou.
- Não dizes nada?
- Não m'apetece.
- Oh rapariga, se não queres falar ao menos respira pa eu saber que tás viva e que não tou aqui sozinha a falar pr'o satélite.

Tirei a Uma Thurman, em fato de treino amarelo, do desktop e substituí por pintura. Estou uma mulherzinha.


16.11.11

Factos a ter em conta:
- aqui, tou em minha casa
- não tens os tintins no sítio
- das últimas trezentas vezes que combinei um café para conversar contigo, cortaste-te sempre em cima da hora usando as desculpas mais esfarrapadas
- Lisboa é uma puta de uma cidade pequena e contam-me que ou te casaste ou estás a viver com outra pessoa que merece o meu maior respeito. E o teu também
- tens-me no reader e vens ler esta merda

Raciocínio:
ora se não temos qualquer tipo de ligação, se a tua coragem há muito ganhou ferrugem, mas não sais de cima (porque a outra parte do foder já nem sequer faz parte da premissa)

Conclusão:
fico-te eternamente grata por ires, neste preciso momento, à tua vida. E evita passar por perto. O meu carro tá velho, tu sabes, só que há outros combustíveis bem mais poderosos que me movem.

14.11.11

Claude Monet, The Pond at Montgeron, 1876-1877

Fim-de-semana em Madrid, anyone?
Dizem-me que é normal isto de me emocionar e chorar com algumas coisas que a minha gente faz e diz. Tem acontecido com frequência, no carro ou em casa, quando já não dá para conter mais. Não é uma coisa sofrida e coitadinha, é gratidão mesmo.
Para mim, que me fiz sozinha - porque quis, porque achei que isso era A verdadeira independência - é pura novidade perceber que sei melhor o que é isto da vida quando estou com os outros. E os ouço.

Parece tão lógico, não é? Avizinham-se mais 33 anos para que outras fichas básicas caiam.

7.11.11

Adoro-a, mas alguém tem que a parar

Estamos todos à roda da mesa a fazer o almoço. Começa ela Olha lá, mas eu nunca te vi de calças justas e agora andas com elas? Que é que te deu? Rosnei um Apeteceu-me, porquê? Um bocado depois, pega na minha camisola e aí vamos nós outra vez Olha que no meu tempo, quem misturava preto mais verde e azul tinha muito mau gosto.
Hum, hum, tá bem mãe. E dou plo meu irmão de olhos arregalados em sinal de "Epá, ignora e não respondas".
Como calhei na rifa, a seguir segue-se o meu colar que Se eu usasse uma coisa com bolas dessas, ficava a parecer uma árvore de natal
Quando a coisa começa a resvalar para os ténis, não dou mais tempo de antena Queres fazer mais algum comentário sobre a minha roupa? O casaco, o lenço, não? Pera. Desaperto o cinto. Mano, vira os olhos pa parede. E desço as calças até aos joelhos. As minhas cuecas são rosa, vês? Rendadas, hum? E o soutien condiz. Aprovas?

Comemos costeletas grelhadas na brasa, arroz e salada, no melhor dos silêncios.

Ballet Zapata

Fui ver as fotos da Frida (enrolou-se com o Trotsky, a grande doida) e quero aqui deixar o meu muito obrigada aos cerca de quinhentos portugueses que me pisaram, passaram à frente e lamberam as fotos com os dedos e com o nariz. Boa gente, pa ver uma exposição não é preciso tar em cima das peças. Nem das outras pessoas.