19.3.12

E da próxima manda polícias giros, sempre me entretenho

Segunda, oito da matina. Malas feitas para me mudar, provisioriamente, para casa da matriarca. A coisa não está nada fácil, mas a vida é sempre em frente e eu não me deixo derrubar assim. Depósito cheio, algumas horas de sono no bucho, produção de evento mesmo importante. 

Carro da frente pára. Eu paro. E nisto fico ensanduichada entre esse e os outros dois que vinham atrás.

A sério, deus, um bocadinho menos para este lado, pode ser?

16.3.12

Não te dou ouvidos porque o teu lugar é atrás do fogão, na cozinha.

Foi o medo de ficar sozinha, as terras de que tem de cuidar, o ter 60 anos e uma vida pesada nas costas, o querer ir empurrando a situação com a barriga a ver se a coisa se resolvia, as retaliações possíveis, a pena, a caridade bacoca, o sentimento de culpa. E isso trouxe-nos aqui. 

Devias era ir trabalhar para a rua, lá é que rendias bem.

Trouxe-me aqui. Se tenho dormido entre 2 a 3 horas por noite, é muito. Sento-me na cama, agarrada ao telefone e à chave do carro. Vigio o sono dela e do meu irmão. Põe uma cadeira atrás da porta. Não só não o faço, como deixo a luz acesa, imaginando-a um farol lá ao longe, como aquele que vejo da minha casa. A-minha-casa. Onde estou segura. O meu muro de silêncio branco e azul.

Se tiver de abandonar este bocadinho de terra, fica-me aqui o coração.

Pois ele que venha. Ameaçou, mentiu, inchou o peito, coagiu, controlou, chantageou. E, no entanto, continua a duas portas da minha. Morro de medo, mas ele que venha.

Se ele vos bater, devem ir imediatamente ao hospital para serem examinados e fazer recolha de provas.

Sento-me e choro, escondo a cara com vergonha. Isto é século XXI, somos pessoas esclarecidas, como é possível que esteja a acontecer? Mas é. Mas está.

Não acontece só aos outros.

Estou tão, tão cansada.

13.3.12

Coragem

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen

12.3.12

Executivos do Saldanha

Grau de aprumo do fato.
Probabilidade da gravata condizer com o lenço do casaco.
Nível de brilho nos sapatos.
Número de alarvidades ditas ao telefone.

Estão todos relacionados: quanto mais elevados os três primeiros, maior o último.

(Todo um manancial, já disse. Tenho que deixar de andar de autocarro.)

Já em 96 era assim

As miúdas da Clássica continuam giras. As da Nova insistem no ar sou de esquerda, leio Roland Barthes na sanita, a depilação é uma coisa fútil e as minhas mamas não são objectificáveis.

(Linha amarela ao almoço, meus caros. É todo um manancial.)


8.3.12

Tenho dito

A amiga A liga porque tem problemas com os pais. A  amiga B liga porque os tem com o namorado. O amigo C liga porque os tem no trabalho. E o D porque foi despedido. A matriarca chora-me desamores ao telefone e o meu irmão anda lá na vida dele. Andam todos, ao que parece.  
Escuto-os com vontade e ajudo porque gosto deles. E porque sou assim. Mas toda esta disponibilidade está a dar cabo de mim, sobretudo porque sou esta pessoa que, mesmo com o feitiozinho que a gente sabe, acha sempre que se pode bem safar sozinha e sem maçá-los quando tem as suas merdas existenciais.

Pois bem, avisos vários à navegação: 
Não sou o vosso caixote do lixo emocional,
Há pessoas que vão passar a estar nas categorias certas para que se acabem expectativas e desapontamentos,
Pôr o orgulho estúpido de lado é tarefa árdua, mas já estou de mangas arregaçadas.

6.3.12

Tudo o que eu gostava de fazer, resumido numa palavra


Detonar.

Deve estar nalguma crise de adolescência

Este meu amigo, aos 36 anos, começou a sair à noite com os putos do agrupamento (ok, só a parte de ele estar nos escuteiros já é esquisitinha) e despede-se de mim com jokax fofax, migah. 


É preocupante?

5.3.12

All the answers I need



Dad: Now I'm a fuckin' prophet, that's one of the perks of bein' dead: you know what happens after you die and you know the meaning of life.

Nate: That seems fairly useless.

Dad: Yeah, I know. Life is wasted on the living.

Six Feet Under, Season 1, Ep. 6

2.3.12

E depois havia a gaja da chinchilla

Eia, a gaja da chinchilla, coisinha mais insuportável. Fizemos estágio juntas e todo-o-santo-dia falava naquilo. Relatava como e o que é que o bicho comia, onde dormia, se estava com o cio ou não e olha, ontem, andou a dar pinotes no meu tapete e a escorregar e a. Foi tão lindo quando percebeu que a bicha era dada à fufalhufice. Como é que sobrevivi a isto? Não sei. Se pensar que esta criatura foi a mesma que:
- coleccionou, organizou e arquivou folhetos da Moviflor para fazer o enxoval
- arrastou uma colega nossa para o veterinário por causa de um pombo (foda-se, um pombo) com uma pata partida
- pôs-se trezentas vezes ao telefone naquela cena do desliga tu, môr. Não, desliga tu
- cavalgou o aquecedor a óleo, na sala de trabalho, para exemplificar como é que ficava por cima do namorado...

Isto é capaz de explicar muita lacuna na minha sanidade.

Havia uma gaja na minha turma da faculdade que não nos deixava bater palmas:

Não sabiam que, por cada aplauso, há uma fada que morre?*

* O Prezado fez a mesma pergunta, por isso adianto já serviço: não, ela não era disléxica.

29.2.12

E no regresso

Por ordem de apreciação:

Sapatos de salto alto azuis escuros, de veludo (?)
Calça de ganga justa
Mala verde-água
Unhas bicolores: metade verdes, metade pretas (com aquela risquinha na diagonal, a dividir)
iphone preto com berloques pendurados (hello kitty?)
Casaco branco cintado, com ramagens verdes e azuis
Óculos de sol com armação branca e doirada
Cabelo loiro

No banco da frente

É aqui a carruagem 3? Não? E o lugar 46? Também não? Tá bom, não tem problema: eu sento-me na mesma e, se chegar alguém, a gente vê isso.

No banco do lado

Tou? Manela? Pois, já aqui voacaminho. Devo chegar a Campanhã aí plazonze, mais coisa menos coisa. Ai Manela, meu amuor, tenho tanto pra desabafar contigo, não te passa. É que não te passa a palhaçada quisto foi. Um gaijo, pra viver. Olha, undéquesecompra um maço por aí, não me dizes? E vens comigo ou vais ficar na cama? Ah, tá beinhe então. No sítio de sempre? Mudar? Por mim. No Ipanema, ali à beira do coiso, é? E achas que ninguém vai dar por. Não, Manela, pronto, tu mandas. O carro fic. Sim, vá, dorme, eu quando tiver pertinho digo alguma coisa.

26.2.12

Querido avô,

De onde te falo está uma bela tarde de sol. Daqui a nada vou estender a roupa, tenho o almoço a fazer e, nos entretantos, vou bebendo da garrafa de Chaminé que comprei no cabrão da mercearia. Desde que o Pingo Doce abriu, tem aquilo às moscas. Oh well, karma is a bitch, quem manda pôr preços do Além e roubar as pensões das velhas, durante anos a fio?

Tinto, 2010. Uma bela merda. Ácido pa caraças. Foi ele, de qualquer forma, que me levou a imaginar um texto delicodoce sobre como, enquanto foste vivo, nenhuma mulher podia entrar na adega, quanto mais pisar uva. Talha o vinho. Pois sim, mas na hora de cortar os dedos com a puta da tesoura e de alombar com os cestos pla fazenda, já fazíamos falta.

Dizia-te?
Ah, sim. Pus-me a ouvir o Canto de Amor, aquele do concerto do Carlos Paredes, em Frankfurt: pareceu-me a banda sonora adequada ao tom saudoso com que iria descrever o grande homem que foste. A tua generosidade inabalável, a força com que trabalhaste até à hora da morte, a alegria contagiante, a pinta de galã, os olhos azuis que herdei e mais uma data de adjectivos que comoveriam os leitores de segunda-feira, dispostos a ler tretas com piada e nunca uma coisa amarga de gaja que, a continuar assim, será uma vacarrona insuportável, mal fodida, mal amada, rotulada plos amigos bem sucedidos e com um nível de vida que upa upa, cuidado lá com ele.

A avó.

Mas depois lembrei-me das cenas de ciúmes que lhe fazias. Nenhum homem podia ir lá a casa se não estivesses. Fosse dar-se o caso de sonhares o gajo a rondar, punhas pernas ao caminho e vá de correr tudo, espingarda na mão, os cartuchos em cima do guarda-vestidos e eu sem perceber por que raio mantinhas os canos vazios.
Giro a valer era eu ir ao hospital para te fazer a barba – foi em que ano que caíste à cama? 96? 97? – e apanhar-te no laréu com as enfermeiras. Lá conversa tinhas tu, sacana. Piscavas o olho e ali ficavas como deus manda: impune nos teus lençóis lavados, comida na boca, banho a horas.

Vícios privados, públicas virtudes. É bom de ver que o tal texto não vai acontecer. Não vai mesmo.

Por mim, tudo o que deixaste - as vinhas, as casas, as terras – podia arder. Eu própria me ofereço para regar aquela porra com gasolina e largar-lhe um fósforo. E hei-de usar a minha última réstia de fé para pedir um vento leste.
Aqui andamos com a vida empatada, presos ao ai que agora vender não rende, ao património afectivo, às horas do teu suor, mantendo-te vivo nas conversas, esperando ver-te montado no tractor, diligente e sábio cuidando das abelhas. Pois que lamento: está na tua hora. Faz o que quiseres, mas some-te. De-sa-pa-re-ce.

Está na tua hora. Ou nunca mais será a minha.

Um beijo da neta