23.10.12

Recuso-me a acreditar que vamos todos acabar sozinhos a dar de comer a gatos abandonados

Preciso de ler histórias de amor com final feliz. 
Alguém tem para partilhar? Caixa de comentários e e-mail à vossa disposição.

22.10.12



Era alta, forte, cabeluda. Madre Clara tinha buço escuro e olhos profundos, negros. Entrara no convento por imposição da família: queriam vê-la abrigada no seio de Deus. Obedeceu. Cumpria suas obrigações sem reclamar. As obrigações eram muitas. E havia as rezas. Rezava com fervor. E se confessava todos os dias. Todos os dias a hóstia branca se desmanchava na boca. Mas começou a se cansar de viver só entre mulheres. Mulheres, mulheres, mulheres. Escolheu uma amiga como confidente. Disse-lhe que não aguentava mais. A amiga aconselhou-a: - Mortifique o corpo. Passou a dormir na laje fria. E fustigava-se com silício. De nada adiantava. Pegava gripes fortes, ficava toda arranhada. Confessou-se ao padre. Ele mandou que continuasse a se mortificar. Ela continuou. Mas na hora em que o padre lhe tocava a boca para dar a hóstia tinha que se controlar para não morder a mão do padre. Este percebia, nada dizia. Havia entre ambos um pacto mudo. Ambos se mortificavam. Não podia mais ver o corpo quase nu do Cristo. Madre Clara era filha de portugueses e, secretamente, raspava as pernas cabeludas. Se soubessem, ai dela. Contou ao padre. Este ficou pálido. Imaginou que suas pernas deviam ser fortes, bem torneadas. Um dia, na hora do almoço, começou a chorar. Não explicou porquê a ninguém. Nem ela sabia por que chorava. E daí em diante vivia chorando. Apesar de comer pouco, engordava. Mas tinha olheiras arroxeadas. Sua voz, quando cantava na igreja, era contralto. Até que disse ao padre no confessionário: - Não aguento mais, juro que não aguento mais! Ele disse meditativo: - É melhor não casar. Mas é melhor casar do que arder.
(...)


"Melhor do que Arder", A via crucis do corpo in Contos de Clarice Lispector, Relógio d'Água.

19.10.12

A gaja pegava no arroz, nos sumos e nos legumes de forma furiosa e espetava com tudo dentro dos sacos. O gajo andava de roda dela Dá cá que eu ajudo, Passa-me isso que eu ponho antes aqui. E ela moita carrasco, nem tida nem achada: um polvo-supremo que se basta a si mesmo. No fim, puxou do cartão MB e pagou tudo, descabelada e com olheiras até ao umbigo. Empurrou o carrinho e ele seguiu atrás, de mãos nos bolsos.
Na caixa da frente foi-me devolvida a mulher que fui há poucos anos. E tive vergonha, muita vergonha.

12.10.12

Agora que tenho cão, percebo aquela coisa da raça canina ser um instrumento de socialização. 
Uma coisa é estar alapada a ver o facecoiso e a fazer like no status do gajo que era um estróina nos tempos da escola, mas que agora é um profissional exemplar e um pai extremoso - e que se refere à mulher como a minha esposa. Outra coisa é encontrar esse gajo às sete da matina, quando ainda tenho os olhos enramelados e zero betume maquilhagem no trombil. Ninguém quer conversar a essa hora. Ninguém. Mas vá, suspiro pra dentro, meto o mantra a rolar e falo. Com ele, com a velha da caturra que só dorme com uma mantinha por cima (wtf?), com a alemã amalucada, com a Eláiniiii quii adórááááá animáu e acha uma báitá cruéudadádi eles sáirem ná ruá sem cápinha prá chuva e com a gordalhufa que insiste na cena zero-soutien e que parece andar a fornicar Moisés, de tão separadas que estão aquelas mamas.
Isto tudo pra dizer que tenho saudades vossas. Fofos.


20.6.12

Clube de Golfe dos Professores de Educação Física

O que fazem os velhos quando envelhecem?
Este aqui à minha frente, de camisola vermelha (com uma sigla bordada a dizer CGPEF) vários tamanhos acima e calças vincadas, vai a sublinhar uma papelada, em cima do ipad. Moderno, hum. Leva um saco de desporto vazio nos joelhos que vai resvalando para os meus. A invasão do espaço pessoal incomoda-me e a hipótese de ele ser viúvo e gastar boa parte das manhãs a alinhar o cabelo para depois se sentar à mesa de pequeno-almoço sem ninguém, como eu, também. Os velhos envelhecem sozinhos. Quando dão por eles, fazem a viagem toda naqueles bancos reservados, a ler o jornal gratuito que acabou de sair debaixo do rabo de alguém e a indignarem-se por detrás das lentes.

3.6.12

Motel


Às vezes é bom pôr todas as outras de parte e ser apenas a matrioshka pequenina - aquela que costuma andar escondida. O mais difícil de tudo? Não misturar erotismo com vulgaridade e porno chachada.

20.5.12

Arte poética com mesa de mármore em fundo




Poucas coisas me fizeram sentir tão banal como a tarde de hoje: passada a depenar galinhas. Uma panela velha com água ao lume, mergulham-se os bichos lá dentro e depois é só arrancar-lhes aquilo. Já não sentem nada, tão mortas, diz a minha mãe.

Mais dia menos dia completam-se três meses desde que ela me telefonou Vem depressa, ele partiu a porta e a seguir sou eu. E eu fui. E o meu irmão também. O que se seguiu (e ainda segue) é um rol de reuniões com advogados, trocas de mails a relatar as pressões e abusos psicológicos de que ela foi vítima ao longo de 12 anos e muitas leituras sobre a violência doméstica. Medo, raiva, vergonha, ódio, olhar para a casa onde se nasceu e querer que ela arda, não reconhecer a pessoa que nos pôs no mundo: senti de tudo até mais ou menos ao ponto onde estou agora. E esse ponto é?

Pra já a necessidade extrema de dormir, como se o corpo se tivesse finalmente borrifado para a velocidade mental e para a importância de estar alerta 24 sobre 24. Apago-me em qualquer parte - 15 minutos depois do almoço, no sofá do trabalho, sabem-me pela vida. Depois, perceber exactamente que raios quero fazer daqui pra frente, agora que estou de volta às minhas merdas. É que honestamente não sei. Tenho a pós-gradução parada, um outro curso em que me tinha matriculado também  foi com as couves, as aulas de boxe em stand-by. As doses de concentração dão-me para conversas que não durem mais que 10 minutos, depois disso o meu cérebro é massa de bolo branca e flutuante. Houve este tipo que me convidou pra sair ontem à noite. Ligou-me umas quantas vezes, deixou mensagem. A minha resposta foi Queres sair comigo por que razão? Não somos exactamente amigos e a última vez que bebemos um copo foi completamente normal, sem grande química. O tempo é demasiado precioso e deve ser gasto com quem gostamos mesmo. Really classy, sim senhor. Tanta filosofia de pacotilha e ensinamento moral sobre o tempo, vindos justamente duma gaja que desperdiça o seu a olhar para o vazio, desejando que alguém lhe dê almoço e jantar na boca. 
Alguma coisa há-de valer a pena, alguma coisa vai dar aqui um click qualquer e eu hei-de retomar o curso normal dos dias, como se houvesse assim um enorme e potente comando universal que reata todas as ligações. Deve ser isto o mais perto que estou de fazer uma oração, meu bom deus.

A minha casa está caótica, por arrumar. Eu estou por arrumar. Se calhar as minhas mãos não dão pra mais. Depenar galinhas umas a seguir às outras, Chaplin século XXI. Se calhar tudo o que é suposto fazer agora é isto, é ajudar quando me pedem. 

Talvez não seja pouco nos dias que correm.

17.5.12

Nada como estar a caminho dos 34 anos e no auge da minha feminilidade.

Quack.

15.5.12


5 meses e vários pares de sapatos depois (p'ra não falar das camisolas roubadas ao cesto da roupa suja e de tudo quanto esteja ao alcance das santas patinhas), rendo-me às evidências: ganhaste o teu lugar.

14.5.12

Escolham - Reloaded

A pessoa com quem estavam a trocar mensagens deixa-vos pendurados e retoma a conversa dizendo Ooops, esqueci-me que tava a falar contigo.*

Essa mesma pessoa, confrontada no dia seguinte com o facto, não se lembra que tal tenha acontecido. #

* (classy)
# (i.e., esqueceu-se que se tinha esquecido) ±
± (what a douchebag)

13.5.12

Escolham

Não ter liberdade.

Reavê-la e não saber o que fazer com ela.

2.5.12

Casamento daqui a duas semanas


Não. Quero. Ir.

(Como se não bastasse, a irmã da noiva ligou agora: vai haver uma despedida de solteira, mas sshh, é surpresa).
Por favor, meu bom deus, assegura-te de que há alguém ao meu lado para me ir mantendo o copo cheio.