Poucas coisas me fizeram sentir tão banal como a tarde de hoje: passada a depenar galinhas. Uma panela velha com água ao lume, mergulham-se os bichos lá dentro e depois é só arrancar-lhes aquilo.
Já não sentem nada, tão mortas, diz a minha mãe.
Mais dia menos dia completam-se três meses desde que ela me telefonou Vem depressa, ele partiu a porta e a seguir sou eu. E eu fui. E o meu irmão também. O que se seguiu (e ainda segue) é um rol de reuniões com advogados, trocas de mails a relatar as pressões e abusos psicológicos de que ela foi vítima ao longo de 12 anos e muitas leituras sobre a violência doméstica. Medo, raiva, vergonha, ódio, olhar para a casa onde se nasceu e querer que ela arda, não reconhecer a pessoa que nos pôs no mundo: senti de tudo até mais ou menos ao ponto onde estou agora. E esse ponto é?
Pra já a necessidade extrema de dormir, como se o corpo se tivesse finalmente borrifado para a velocidade mental e para a importância de estar alerta 24 sobre 24. Apago-me em qualquer parte - 15 minutos depois do almoço, no sofá do trabalho, sabem-me pela vida. Depois, perceber exactamente que raios quero fazer daqui pra frente, agora que estou de volta às minhas merdas. É que honestamente não sei. Tenho a pós-gradução parada, um outro curso em que me tinha matriculado também foi com as couves, as aulas de boxe em stand-by. As doses de concentração dão-me para conversas que não durem mais que 10 minutos, depois disso o meu cérebro é massa de bolo branca e flutuante. Houve este tipo que me convidou pra sair ontem à noite. Ligou-me umas quantas vezes, deixou mensagem. A minha resposta foi Queres sair comigo por que razão? Não somos exactamente amigos e a última vez que bebemos um copo foi completamente normal, sem grande química. O tempo é demasiado precioso e deve ser gasto com quem gostamos mesmo. Really classy, sim senhor. Tanta filosofia de pacotilha e ensinamento moral sobre o tempo, vindos justamente duma gaja que desperdiça o seu a olhar para o vazio, desejando que alguém lhe dê almoço e jantar na boca.
Alguma coisa há-de valer a pena, alguma coisa vai dar aqui um click qualquer e eu hei-de retomar o curso normal dos dias, como se houvesse assim um enorme e potente comando universal que reata todas as ligações. Deve ser isto o mais perto que estou de fazer uma oração, meu bom deus.
A minha casa está caótica, por arrumar. Eu estou por arrumar. Se calhar as minhas mãos não dão pra mais. Depenar galinhas umas a seguir às outras, Chaplin século XXI. Se calhar tudo o que é suposto fazer agora é isto, é ajudar quando me pedem.
Talvez não seja pouco nos dias que correm.