10.11.12
8.11.12
O Esteves montou uma vivenda à beira da estrada nacional que é uma coisa inacreditável - mármore, repuxos, gárgulas aladas e grades nas janelas, não vá dar-se o caso de alguém sonhar roubar a colecção de baixelas da mulher. Vai ver dos porcos - todos amontoados num barracão, à espera de levar aquele choque silencioso no pescoço - sempre no seu topo de gama. Dizem as más línguas que banca a cem por cento o filho mais velho, um tipo perdido em putas e jogo algures pro Norte, que se esquivou a um casamento com a namorada de infância deixando-lhe, na noite anterior, uma cartinha na caixa do correio.
O Esteves apalpa as funcionárias do talho na câmara frigorífica, mas oferece-lhes fins-de-semana com tudo pago e almôndegas tenrinhas para darem aos filhos, coitadinhos.
O Esteves tem fortuna e côr de quem lhe dá bem no tinto. Só não tem quem lhe fique com o negócio quando se finar. É uma porra.
(Pedro, este é para ti :) )
Os homens e as suas calças. Os homens fumando cigarros, escondidos nos seus casacos pretos de pele.
Os ombros e os braços dos homens numa corrida matinal.
O andar dos homens a desaparecer na plataforma da estação. As mochilas que jingam nas costas duras dos homens.
Os homens e o seu sorriso e a sua franqueza e o seu olhar descomplexo e o seu abraço.
Longa vida aos homens.
Para aqueles que dizem que não tenho uma estratégia de vida
Vejamos os factos:
Tenho uma herança em terras e assim deixada pelo meu avô,
A Pirolita (a puta lá da terra) morreu,
Vou a caminho do meu sexto ano no Hades laboral e rezo todos os dias para isto expluda ou seja engolido por um void paralelo.
A solução evidente:
Volto p'ra terra, de dia ponho batatas, podo as árvores e dou farelos amassados com couve às galinhas. À noite faço broches e inicio sexualmente os filhos dos talhantes abastados lá do burgo.
Eu cá acho que é perfeito.
2.11.12
Algures entre a sopa de hortaliça e o arroz de pato, o tipo achou por bem tentar a sorte. Festas e assim. És tão branquinha e macia.
Como explicar-lhe que comida portuguesa e romance, num primeiro jantar, são coisas que não jogam uma com a outra? Trinquei uma rodela de chouriço bem tostada e rezei pra que se calasse só um bocadinho. Não te importas que te faça festas, pois não?
Não se calou.
Quer dizer, importar não importo. É tudo uma questão de ir gerindo o meu desconforto. Queres um gole?
A cerveja não era nada má, não senhor.
Desconforto? Escolhes bem as palavras.
É de ler tanto. Tenho muito vocabulário.
Dez minutos depois a conta estava na mesa. Plo menos pude acabar os restos do arroz em casa. E em silêncio.
23.10.12
Recuso-me a acreditar que vamos todos acabar sozinhos a dar de comer a gatos abandonados
Preciso de ler histórias de amor com final feliz.
Alguém tem para partilhar? Caixa de comentários e e-mail à vossa disposição.
22.10.12
Era alta, forte, cabeluda. Madre Clara tinha buço escuro e olhos profundos, negros.
Entrara no convento por imposição da família: queriam vê-la abrigada no seio de Deus. Obedeceu.
Cumpria suas obrigações sem reclamar. As obrigações eram muitas. E havia as rezas. Rezava com fervor.
E se confessava todos os dias. Todos os dias a hóstia branca se desmanchava na boca.
Mas começou a se cansar de viver só entre mulheres. Mulheres, mulheres, mulheres. Escolheu uma amiga como confidente. Disse-lhe que não aguentava mais. A amiga aconselhou-a:
- Mortifique o corpo.
Passou a dormir na laje fria. E fustigava-se com silício. De nada adiantava. Pegava gripes fortes, ficava toda arranhada.
Confessou-se ao padre. Ele mandou que continuasse a se mortificar. Ela continuou.
Mas na hora em que o padre lhe tocava a boca para dar a hóstia tinha que se controlar para não morder a mão do padre. Este percebia, nada dizia. Havia entre ambos um pacto mudo. Ambos se mortificavam.
Não podia mais ver o corpo quase nu do Cristo.
Madre Clara era filha de portugueses e, secretamente, raspava as pernas cabeludas. Se soubessem, ai dela. Contou ao padre. Este ficou pálido. Imaginou que suas pernas deviam ser fortes, bem torneadas.
Um dia, na hora do almoço, começou a chorar. Não explicou porquê a ninguém. Nem ela sabia por que chorava.
E daí em diante vivia chorando. Apesar de comer pouco, engordava. Mas tinha olheiras arroxeadas. Sua voz, quando cantava na igreja, era contralto.
Até que disse ao padre no confessionário:
- Não aguento mais, juro que não aguento mais!
Ele disse meditativo:
- É melhor não casar. Mas é melhor casar do que arder.
(...)
(...)
"Melhor do que Arder", A via crucis do corpo in Contos de Clarice Lispector, Relógio d'Água.
19.10.12
A gaja pegava no arroz, nos sumos e nos legumes de forma furiosa e espetava com tudo dentro dos sacos. O gajo andava de roda dela Dá cá que eu ajudo, Passa-me isso que eu ponho antes aqui. E ela moita carrasco, nem tida nem achada: um polvo-supremo que se basta a si mesmo. No fim, puxou do cartão MB e pagou tudo, descabelada e com olheiras até ao umbigo. Empurrou o carrinho e ele seguiu atrás, de mãos nos bolsos.
Na caixa da frente foi-me devolvida a mulher que fui há poucos anos. E tive vergonha, muita vergonha.
12.10.12
Agora que tenho cão, percebo aquela coisa da raça canina ser um instrumento de socialização.
Uma coisa é estar alapada a ver o facecoiso e a fazer like no status do gajo que era um estróina nos tempos da escola, mas que agora é um profissional exemplar e um pai extremoso - e que se refere à mulher como a minha esposa. Outra coisa é encontrar esse gajo às sete da matina, quando ainda tenho os olhos enramelados e zero betume maquilhagem no trombil. Ninguém quer conversar a essa hora. Ninguém. Mas vá, suspiro pra dentro, meto o mantra a rolar e falo. Com ele, com a velha da caturra que só dorme com uma mantinha por cima (wtf?), com a alemã amalucada, com a Eláiniiii quii adórááááá animáu e acha uma báitá cruéudadádi eles sáirem ná ruá sem cápinha prá chuva e com a gordalhufa que insiste na cena zero-soutien e que parece andar a fornicar Moisés, de tão separadas que estão aquelas mamas.
Isto tudo pra dizer que tenho saudades vossas. Fofos.
20.6.12
Clube de Golfe dos Professores de Educação Física
O que fazem os velhos quando envelhecem?
Este aqui à minha frente, de camisola vermelha (com uma sigla bordada a dizer CGPEF) vários tamanhos acima e calças vincadas, vai a sublinhar uma papelada, em cima do ipad. Moderno, hum. Leva um saco de desporto vazio nos joelhos que vai resvalando para os meus. A invasão do espaço pessoal incomoda-me e a hipótese de ele ser viúvo e gastar boa parte das manhãs a alinhar o cabelo para depois se sentar à mesa de pequeno-almoço sem ninguém, como eu, também. Os velhos envelhecem sozinhos. Quando dão por eles, fazem a viagem toda naqueles bancos reservados, a ler o jornal gratuito que acabou de sair debaixo do rabo de alguém e a indignarem-se por detrás das lentes.
3.6.12
Motel
Às vezes é bom pôr todas as outras de parte e ser apenas a matrioshka pequenina - aquela que costuma andar escondida. O mais difícil de tudo? Não misturar erotismo com vulgaridade e porno chachada.
20.5.12
Arte poética com mesa de mármore em fundo
Poucas coisas me fizeram sentir tão banal como a tarde de hoje: passada a depenar galinhas. Uma panela velha com água ao lume, mergulham-se os bichos lá dentro e depois é só arrancar-lhes aquilo. Já não sentem nada, tão mortas, diz a minha mãe.
Mais dia menos dia completam-se três meses desde que ela me telefonou Vem depressa, ele partiu a porta e a seguir sou eu. E eu fui. E o meu irmão também. O que se seguiu (e ainda segue) é um rol de reuniões com advogados, trocas de mails a relatar as pressões e abusos psicológicos de que ela foi vítima ao longo de 12 anos e muitas leituras sobre a violência doméstica. Medo, raiva, vergonha, ódio, olhar para a casa onde se nasceu e querer que ela arda, não reconhecer a pessoa que nos pôs no mundo: senti de tudo até mais ou menos ao ponto onde estou agora. E esse ponto é?
Pra já a necessidade extrema de dormir, como se o corpo se tivesse finalmente borrifado para a velocidade mental e para a importância de estar alerta 24 sobre 24. Apago-me em qualquer parte - 15 minutos depois do almoço, no sofá do trabalho, sabem-me pela vida. Depois, perceber exactamente que raios quero fazer daqui pra frente, agora que estou de volta às minhas merdas. É que honestamente não sei. Tenho a pós-gradução parada, um outro curso em que me tinha matriculado também foi com as couves, as aulas de boxe em stand-by. As doses de concentração dão-me para conversas que não durem mais que 10 minutos, depois disso o meu cérebro é massa de bolo branca e flutuante. Houve este tipo que me convidou pra sair ontem à noite. Ligou-me umas quantas vezes, deixou mensagem. A minha resposta foi Queres sair comigo por que razão? Não somos exactamente amigos e a última vez que bebemos um copo foi completamente normal, sem grande química. O tempo é demasiado precioso e deve ser gasto com quem gostamos mesmo. Really classy, sim senhor. Tanta filosofia de pacotilha e ensinamento moral sobre o tempo, vindos justamente duma gaja que desperdiça o seu a olhar para o vazio, desejando que alguém lhe dê almoço e jantar na boca.
Alguma coisa há-de valer a pena, alguma coisa vai dar aqui um click qualquer e eu hei-de retomar o curso normal dos dias, como se houvesse assim um enorme e potente comando universal que reata todas as ligações. Deve ser isto o mais perto que estou de fazer uma oração, meu bom deus.
A minha casa está caótica, por arrumar. Eu estou por arrumar. Se calhar as minhas mãos não dão pra mais. Depenar galinhas umas a seguir às outras, Chaplin século XXI. Se calhar tudo o que é suposto fazer agora é isto, é ajudar quando me pedem.
Talvez não seja pouco nos dias que correm.
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